Matriz de risco ocupacional

A matriz de risco combina a probabilidade de um dano com a sua severidade para dar a cada risco um nível — e, com ele, uma prioridade. Veja como ela funciona, exemplos de matrizes 3 × 3, 4 × 4 e 5 × 5, como definir critérios de decisão, quais são as limitações e o que a NR-01 exige (e não exige) no PGR.

Por Equipe NextSafeAtualizado em

O que é matriz de risco

A matriz de risco — também chamada de matriz de probabilidade e consequência, ou de probabilidade × severidade — é uma tabela de dois eixos: num, as gradações de severidade do dano; no outro, as de probabilidade. Cada cruzamento corresponde a um nível de risco.

Ela traduz em ferramenta o conceito da NR-01, que define risco ocupacional como a combinação da probabilidade de ocorrer lesão ou agravo à saúde com a severidade dessa lesão ou agravo (Anexo I) e exige que cada risco tenha um nível determinado por essa combinação (item 1.5.4.4.2). O Manual do MTE apresenta a matriz como uma das metodologias mais utilizadas — não a única: a ABNT NBR ISO/IEC 31010, citada no Manual, inclui outras, como HAZOP, FMEA e índices de risco.

A matriz é a ferramenta da etapa de avaliação do gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO), e o resultado vai para o inventário de riscos.

Para que serve: comparar, decidir e priorizar

  • Comparar riscos diferentes na mesma régua. Ruído, queda de altura e sobrecarga de trabalho não têm unidade comum. Segundo o Manual, uma metodologia única no nível geral do GRO é o que permite integrar os riscos e priorizar tipos diferentes numa mesma base.
  • Decidir. Depois do nível vem a classificação: o risco é aceitável ou tolerável, ou exige ação? (item 1.5.4.4.3).
  • Ordenar o plano de ação. A classificação define o que entra no plano e em que ordem (item 1.5.5.2.1). A NR-01 acrescenta um critério de fora da matriz: o número de trabalhadores possivelmente atingidos aumenta a prioridade (item 1.5.5.2.1.1).
  • Dar transparência. Critérios escritos permitem que gestores, CIPA, trabalhadores e fiscalização entendam por que um risco recebeu determinado nível, observa o Manual.

Probabilidade × severidade: como se chega ao nível de risco

Os dois eixos não são livres. A NR-01 fixa regras para cada um, qualquer que seja a matriz.

Severidade

É estabelecida pela magnitude das possíveis consequências (item 1.5.4.4.4); se houver mais de uma, vale a de maior magnitude (item 1.5.4.4.4.1). No exemplo do Manual, uma máquina com partes móveis sem proteção pode causar de cortes simples a amputações: a severidade é a da amputação. A “regra de ouro”, nas palavras do Manual: avaliar pelo pior cenário possível, não pelo mais provável.

Probabilidade

É a chance de ocorrer a lesão ou o agravo (item 1.5.4.4.5) e precisa considerar:

  • o cumprimento das NRs e da legislação (item 1.5.4.4.5.1) — para o MTE, descumprir requisito específico de NR eleva a probabilidade à gradação mais alta;
  • para agentes físicos, químicos e biológicos, o perfil de exposição frente a valores de referência ou critérios da NR-09 (item 1.5.4.4.5.2);
  • para fatores ergonômicos, incluindo os psicossociais, as exigências da atividade — duração e intensidade, detalha o Manual (item 1.5.4.4.5.3);
  • para acidentes, a exposição do trabalhador ao perigo (item 1.5.4.4.5.4);
  • sempre, a eficácia das medidas já implantadas: se seguem a hierarquia de prevenção e se são mantidas ao longo do tempo.

O cruzamento

Com as duas gradações, localiza-se a célula. Na matriz de exemplo do Manual, cada célula traz o produto das notas. Exemplo conceitual: uma máquina cuja pior consequência é a amputação (severidade 4, “maior”), com proteções que existem, mas falham por manutenção irregular (probabilidade 3, “possível”): 4 × 3 = 12, faixa “alto”. Multiplicar é uma convenção — a NR-01 fala em combinação e deixa o método à organização.

Exemplos de matriz de risco: 3 × 3, 4 × 4 e 5 × 5

Exemplos, não modelos oficiais

Nenhuma das matrizes abaixo é obrigatória. A NR-01 não define ferramenta, e nas perguntas frequentes de 2022 o MTE já esclarecia que não há padronização nem da quantidade de níveis de severidade, de probabilidade ou de risco: a escolha é da organização.

Matriz 5 × 5 (exemplo do Manual do MTE)

O Manual reproduz uma matriz baseada na ISO 45002:2023, com severidade de leve (1) a morte (5) e probabilidade de muito improvável (1) a muito provável (5). Pelas cores da figura, as faixas ficam assim: até 4, baixo; de 5 a 9, médio; 10 e 12, alto; de 15 a 25, muito alto.

Severidade ↓ / Probabilidade →1 · Muito improvável2 · Pouco provável3 · Possível4 · Provável5 · Muito provável
5 · Morte5 · Médio10 · Alto15 · Muito alto20 · Muito alto25 · Muito alto
4 · Maior4 · Baixo8 · Médio12 · Alto16 · Muito alto20 · Muito alto
3 · Moderada3 · Baixo6 · Médio9 · Médio12 · Alto15 · Muito alto
2 · Menor2 · Baixo4 · Baixo6 · Médio8 · Médio10 · Alto
1 · Leve1 · Baixo2 · Baixo3 · Baixo4 · Baixo5 · Médio

Matriz 4 × 4 (exemplo ilustrativo)

Com quatro níveis por eixo não existe categoria central: o avaliador decide se a probabilidade está mais para baixa ou para alta. Faixas deste exemplo: até 3, baixo; 4 a 6, médio; 8 e 9, alto; 12 a 16, muito alto.

Severidade ↓ / Probabilidade →1 · Improvável2 · Possível3 · Provável4 · Muito provável
4 · Gravíssima4 · Médio8 · Alto12 · Muito alto16 · Muito alto
3 · Grave3 · Baixo6 · Médio9 · Alto12 · Muito alto
2 · Moderada2 · Baixo4 · Médio6 · Médio8 · Alto
1 · Leve1 · Baixo2 · Baixo3 · Baixo4 · Médio

Matriz 3 × 3 (exemplo ilustrativo)

Faixas deste exemplo: 1 e 2, baixo; 3 e 4, médio; 6 a 9, alto.

Severidade ↓ / Probabilidade →1 · Improvável2 · Possível3 · Provável
3 · Grave3 · Médio6 · Alto9 · Alto
2 · Moderada2 · Baixo4 · Médio6 · Alto
1 · Leve1 · Baixo2 · Baixo3 · Médio

Menos níveis exigem menos distinções do avaliador, mas juntam no mesmo nível riscos bem diferentes; mais níveis discriminam melhor, desde que cada gradação tenha definição clara. Em qualquer formato, as faixas são decisão de critério — e precisam estar escritas.

Como montar a matriz e os critérios de decisão

Montar a matriz é escrever o documento de critérios que a NR-01 exige: gradações de severidade e de probabilidade, níveis de risco e critérios de classificação e de tomada de decisão (item 1.5.4.4.2.2). Segundo o Manual, ele pode ser um documento próprio ou a introdução do inventário.

1. Descreva cada gradação

Rótulos como “moderada” ou “possível” geram leituras diferentes. Associe a cada nível uma descrição observável:

Severidade (exemplo ilustrativo)Descrição
1 · LeveLesão ou agravo sem afastamento, como casos de primeiros socorros
2 · MenorAfastamento curto, com recuperação completa
3 · ModeradaAfastamento prolongado, sem sequela permanente
4 · MaiorLesão ou doença com sequela ou incapacidade permanente
5 · MorteÓbito

Para a probabilidade, ancore as descrições nos critérios da NR-01: exposição, cumprimento das NRs e eficácia das medidas. Para agentes com limite de exposição, a gradação pode usar a comparação com o nível de ação e o limite de tolerância (NR-09, item 9.6.1).

2. Defina as faixas e o que fazer em cada uma

Para cada nível, diga o que fazer, em quanto tempo e quem decide. O Manual traz um exemplo — do “muito alto”, em que o trabalho não deve começar nem continuar até a redução do risco, ao “baixo”, que pede monitoramento —, com prazos de referência reproduzidos no guia do GRO. Duas regras vêm da norma: risco evidente pede medida imediata, sem esperar análise detalhada (item 1.5.4.2.1.1), e o número de expostos aumenta a prioridade (item 1.5.5.2.1.1).

3. Diga o que é aceitável

Para o MTE, risco tolerável é aquele em que a organização já adota todas as medidas de prevenção e controle exigidas pelas NRs e pela legislação. Nenhuma célula verde torna aceitável um requisito legal descumprido.

4. Use a mesma régua para tudo

Ferramentas específicas — dosimetria, métodos ergonômicos, questionários — alimentam a avaliação, mas o resultado de cada risco deve usar as mesmas gradações do GRO, para que a priorização seja integrada, orienta o Manual.

No NextSafe, a matriz é 5 × 5, com probabilidade e severidade de 1 a 5, e os limites das faixas de criticidade — baixo, moderado, alto e crítico — são configuráveis por empresa, para refletir os cortes do documento de critérios. Cada risco pode ter plano de ação com responsável, prazo e status; consultorias aplicam o mesmo padrão em toda a carteira com o software para consultoria de SST.

Limitações da matriz de risco

A matriz é popular porque é simples. Conhecer o preço dessa simplicidade ajuda a usá-la bem.

  • Subjetividade. Em artigo na revista Risk Analysis, Louis Anthony Cox Jr. mostrou que entradas e saídas das matrizes exigem interpretação subjetiva e que avaliadores diferentes podem chegar a classificações opostas para os mesmos riscos. Antídotos: descrições escritas, exemplos e avaliação multidisciplinar e participativa, como recomenda o Manual.
  • Resolução limitada. A mesma nota pode esconder riscos muito diferentes — a “compressão de faixa” descrita por Cox. Na 5 × 5 do Manual, um evento fatal muito improvável (5 × 1) e uma lesão leve muito provável (1 × 5) dão 5 e caem no mesmo nível. Se a organização quiser tratar consequências fatais de outro modo, a regra vai para o documento de critérios.
  • Calibração. Mover um corte entre faixas muda a prioridade de muitos riscos de uma vez. Teste os critérios com riscos reais antes de aplicá-los ao inventário inteiro.
  • Consistência. Sem critérios escritos, equipes, unidades e revisões diferentes dão notas distintas à mesma situação. O Manual alerta ainda para a normalização do desvio: quem convive com um perigo pode passar a julgá-lo trivial.
  • Não substitui a norma nem a medição. A matriz não dispensa as avaliações da NR-09 nem serve para caracterizar insalubridade ou periculosidade, que seguem a NR-15 e a NR-16 (item 1.5.2).

Cox conclui que matrizes devem ser usadas com cautela e com explicação cuidadosa dos julgamentos embutidos. No PGR, esse é o papel do documento de critérios.

Matriz de risco no PGR: o que a NR-01 exige e o que não exige

ExigeNão exige
Nível de risco pela combinação de severidade e probabilidade (item 1.5.4.4.2)Uma matriz específica: “a norma não define previamente nenhuma das diversas ferramentas”, diz o Manual
Ferramentas adequadas ao risco ou circunstância (item 1.5.4.4.2.1)Quantidade fixa de níveis, nem matriz 5 × 5
Documento de critérios (item 1.5.4.4.2.2)Formato fixo para esse documento
Classificação para decidir medidas e plano de ação (item 1.5.4.4.3)Prazos fixos por nível: o cronograma é da organização

Nas Perguntas e Respostas de 2026, o MTE afirma que a NR-01 assegura à organização a escolha das ferramentas e metodologias, desde que tecnicamente fundamentadas, e que não cabe ao Auditor-Fiscal impor, de forma geral, uma ferramenta específica: a fiscalização olha consistência técnica, coerência dos critérios e efetividade. Há uma mudança em relação à redação anterior: o número de trabalhadores afetados entrava na gradação da severidade; desde 26 de maio de 2026, é critério de prioridade do plano de ação (item 1.5.5.2.1.1).

Cuidado com a matriz da NR-03. Ela existe, mas sua metodologia serve para o Auditor-Fiscal caracterizar grave e iminente risco, “não se constituindo em metodologia padronizada para gestão de riscos pelo empregador” (item 3.5.1).

E as normas ISO? Nenhuma é obrigatória para o PGR. A ISO 45001:2018 traz requisitos de sistemas de gestão de SST, e a certificação em sistema de gestão de SST permite estender a revisão periódica da avaliação para até três anos (item 1.5.4.4.6.1). A ISO 45002:2023, guia de implementação da ISO 45001, é a fonte indicada para a matriz de exemplo do Manual. A ISO 31000:2018 dá diretrizes gerais de gestão de riscos, e a IEC 31010:2019 orienta a escolha de técnicas de avaliação; a versão brasileira citada pelo MTE, a ABNT NBR IEC 31010, inclui a matriz de probabilidade e consequência entre elas. Para o contexto completo, veja o guia da NR-01 e o que é PGR.

Perguntas frequentes

O que é matriz de risco?

É uma tabela que cruza gradações de severidade e de probabilidade para atribuir um nível a cada risco. No PGR, é uma das ferramentas possíveis para cumprir a exigência da NR-01 de indicar o nível de risco pela combinação desses dois fatores (item 1.5.4.4.2).

A NR-01 obriga a usar matriz 5 × 5?

Não. A norma não define ferramenta nem quantidade de níveis. A matriz 5 × 5 do Manual do MTE, baseada na ISO 45002:2023, é apenas um exemplo. O obrigatório é documentar os critérios de severidade, probabilidade, níveis de risco, classificação e decisão (item 1.5.4.4.2.2).

Qual a diferença entre nível de risco e classificação de risco?

O nível resulta da combinação de severidade e probabilidade. A classificação é o julgamento seguinte: decidir se o risco é aceitável ou tolerável ou se exige medidas, e com que prioridade, para montar o plano de ação (item 1.5.4.4.3).

Posso usar a matriz da NR-03 no PGR?

Não. A NR-03 diz que sua metodologia serve para o Auditor-Fiscal do Trabalho caracterizar grave e iminente risco e não constitui metodologia padronizada para a gestão de riscos pelo empregador (item 3.5.1).

Como definir a probabilidade na matriz?

Pela chance de ocorrência da lesão ou agravo, considerando o cumprimento das NRs, a eficácia das medidas implantadas e, conforme o perigo, o perfil de exposição (agentes), as exigências da atividade (fatores ergonômicos e psicossociais) ou a exposição ao perigo (acidentes) — itens 1.5.4.4.5 a 1.5.4.4.5.4 da NR-01.

Referências

  1. NR-01 — Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (texto em vigor desde 26/05/2026) — Ministério do Trabalho e Emprego
  2. Manual de interpretação e aplicação do capítulo 1.5 da NR-1 — Gerenciamento de riscos ocupacionais (2026) — Ministério do Trabalho e Emprego
  3. Perguntas e respostas sobre o capítulo 1.5 da NR-1 (maio/2026) — Ministério do Trabalho e Emprego
  4. Perguntas frequentes: NR-01 — Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (versão 01, 2022) — Ministério do Trabalho e Previdência
  5. NR-03 — Embargo e Interdição — Ministério do Trabalho e Emprego
  6. NR-09 — Avaliação e Controle das Exposições Ocupacionais a Agentes Físicos, Químicos e Biológicos — Ministério do Trabalho e Emprego
  7. ISO 45002:2023 — Occupational health and safety management systems — General guidelines for the implementation of ISO 45001:2018 — International Organization for Standardization (ISO)
  8. ISO 45001:2018 — Occupational health and safety management systems — Requirements with guidance for use — International Organization for Standardization (ISO)
  9. ISO 31000:2018 — Risk management — Guidelines — International Organization for Standardization (ISO)
  10. IEC 31010:2019 — Risk management — Risk assessment techniques — IEC / ISO
  11. Cox, L. A. Jr. What’s wrong with risk matrices? Risk Analysis, v. 28, n. 2, p. 497-512, 2008 — PubMed (National Library of Medicine)

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