O que é o COPSOQ
O COPSOQ é um instrumento de pesquisa e de avaliação das condições psicossociais no trabalho, pensado também para orientar a prevenção e a promoção da saúde. É um questionário respondido pelos próprios trabalhadores.
Seu diferencial é não depender de uma única teoria. Segundo a rede internacional que o mantém, ele reúne dimensões dos modelos mais influentes da área — como demanda-controle-apoio social e desequilíbrio esforço-recompensa — e inclui aspectos antes pouco medidos, como exigências emocionais e clareza de papel. É genérico: serve para qualquer ocupação, setor e porte de empresa.
O questionário mede dois tipos de indicador: exposições, que são os fatores psicossociais do trabalho, e efeitos, como saúde, satisfação e estresse. Está disponível em mais de 25 idiomas, incluindo o português do Brasil e o de Portugal.
Origem e versões: COPSOQ I, II e III
O COPSOQ foi desenvolvido por pesquisadores do centro nacional dinamarquês de pesquisa em ambiente de trabalho, em Copenhague, liderados por Tage S. Kristensen e Vilhelm Borg. A primeira versão é de 2000 e foi apresentada em artigo científico em 2005, com base em uma amostra representativa de 1.858 trabalhadores dinamarqueses de 20 a 59 anos.
Desde o início, o questionário existe em três tamanhos: longo, para pesquisa; médio, para profissionais de saúde e segurança do trabalho; e curto, para uso nos próprios locais de trabalho.
| Versão | Publicação | Destaques |
|---|---|---|
| COPSOQ I | 2005 (Kristensen et al.) | Versões longa (141 perguntas, 30 dimensões), média (95 perguntas, 26 dimensões) e curta (44 perguntas, 8 dimensões). |
| COPSOQ II | 2010 (Pejtersen et al.) | Testado com 3.517 trabalhadores dinamarqueses. Ganhou escalas sobre confiança, justiça, inclusão social, variação, ritmo de trabalho, reconhecimento e conflito trabalho-família, itens sobre comportamentos ofensivos e escalas de burnout, estresse, problemas de sono e sintomas depressivos. |
| COPSOQ III | 2019 (Burr et al.) | Desenvolvido pela rede internacional e testado com 23.361 trabalhadores de Canadá, Espanha, França, Alemanha, Suécia e Turquia. Define itens centrais obrigatórios em todas as versões nacionais. |
A partir de 2007, o desenvolvimento passou a ser coordenado pela rede internacional do COPSOQ. No COPSOQ III, cada país tem uma equipe nacional que define as versões curta, média e longa a partir dos itens centrais. No COPSOQ II, os três tamanhos ficaram assim:
| Versão do COPSOQ II | Dimensões | Perguntas | Uso previsto |
|---|---|---|---|
| Longa | 41 | 127 | Pesquisa |
| Média | 28 | 87 | Profissionais de saúde e segurança do trabalho, na avaliação de riscos e no planejamento |
| Curta | 23 | 40 | Locais de trabalho, inclusive aplicação pela própria empresa, sem consultoria |
O que o questionário COPSOQ II avalia
As escalas se organizam em grandes domínios. A tabela mostra, em tradução livre, as 23 dimensões da versão curta:
| Domínio | Dimensões na versão curta |
|---|---|
| Exigências do trabalho | Exigências quantitativas; ritmo de trabalho; exigências emocionais |
| Organização e conteúdo do trabalho | Influência no trabalho; possibilidades de desenvolvimento; sentido do trabalho; compromisso com o local de trabalho |
| Relações interpessoais e liderança | Previsibilidade; reconhecimento; clareza de papel; qualidade da liderança; apoio social do superior |
| Interface trabalho-indivíduo | Satisfação com o trabalho; conflito trabalho-família |
| Valores no local de trabalho | Confiança entre gestão e trabalhadores; justiça e respeito |
| Saúde e bem-estar | Saúde geral; burnout; estresse |
| Comportamentos ofensivos | Atenção sexual indesejada; ameaças de violência; violência física; bullying |
As versões média e longa acrescentam outras escalas — por exemplo, conflitos de papel, apoio dos colegas e problemas de sono. A longa inclui ainda exigências cognitivas, insegurança no emprego, sintomas depressivos e autoeficácia.
Atenção à leitura: algumas dimensões medem exposições negativas (quanto maior, pior, como ritmo de trabalho) e outras medem recursos (quanto maior, melhor, como influência no trabalho e apoio do superior). Isso muda a forma de interpretar cada escore.
COPSOQ II no Brasil
A versão curta foi traduzida e adaptada para o português brasileiro em uma tese de doutorado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), de 2019. O estudo de validação, publicado na Revista de Saúde Pública em 2021 (Gonçalves et al.), avaliou 211 trabalhadores de São Carlos (SP) e concluiu que as propriedades psicométricas do COPSOQ II-Br são adequadas para uso no Brasil por profissionais de saúde ocupacional e de recursos humanos.
Em 2026, pesquisadores do mesmo grupo publicaram na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional um ensaio que explica o cálculo dos escores, a interpretação dos resultados e o uso do COPSOQ II-Br no contexto da NR-01 (Sato et al.). Segundo o ensaio, a versão brasileira foi reconhecida pela rede internacional do COPSOQ, que a lista entre os estudos de validação do país.
A rede também lista um estudo de 2019 com uma versão média do COPSOQ II aplicada no Sul do Brasil (Lima et al.), que chegou a um modelo de 13 dimensões e 70 perguntas.
Como aplicar o COPSOQ II
As diretrizes da rede internacional e as orientações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) apontam um roteiro:
- Só comece se houver intenção de agir. As diretrizes são diretas: não inicie uma avaliação de riscos psicossociais sem a clara intenção de agir sobre os resultados.
- Envolva as partes. O instrumento funciona melhor quando gestão, representantes dos trabalhadores e equipe atuam juntos, com apoio técnico quando necessário — da preparação ao acompanhamento das medidas.
- Use a versão validada, sem alterar itens. A redação e os itens são definidos pela equipe nacional, e a integridade da versão validada deve ser respeitada. Pela licença, material modificado não pode ser distribuído como COPSOQ.
- Comunique antes. O MTE recomenda explicar aos trabalhadores o objetivo do questionário e os resultados esperados, para favorecer a adesão.
- Defina as unidades de análise. Setor, função ou grupo de exposição compatíveis com os do PGR facilitam a integração dos resultados, como sugere o MTE.
- Acompanhe a participação. Responder é voluntário. Pelas diretrizes, uma taxa de resposta abaixo de 60% pode indicar falta de engajamento no processo.
- Cuide da compreensão. Para quem tem menos familiaridade com formulários, aplicação assistida e esclarecimentos padronizados ajudam a garantir que as perguntas sejam bem entendidas.
- Repita depois de intervir. As diretrizes recomendam reaplicar o questionário de 1 a 2 anos após as intervenções, para verificar se houve melhora.
Na NR-01, o questionário é um meio, não um fim. O MTE afirma que questionários padronizados não são obrigatórios e que, sozinhos, não bastam para caracterizar o gerenciamento dos riscos psicossociais: os resultados precisam ser analisados e integrados à Avaliação Ergonômica Preliminar ou ao inventário de riscos. Veja o processo completo em riscos psicossociais no trabalho e no guia da NR-01.
Como interpretar os resultados
Não existe um ponto de corte universal para o COPSOQ. Cada versão validada define sua forma de pontuar e classificar — e misturar critérios de versões diferentes leva a erro.
Versão curta brasileira (COPSOQ II-Br)
No ensaio de Sato et al. (2026), o escore de cada dimensão é a soma das respostas dos seus itens. Em dimensões de duas perguntas, vai de 0 a 8 pontos. Cada dimensão tem faixas próprias, classificadas como seguro (verde), atenção (amarelo) ou risco (vermelho). Alguns exemplos:
| Dimensão | Seguro | Atenção | Risco |
|---|---|---|---|
| Exigências quantitativas | 0 a 3 | 4 | 5 a 8 |
| Ritmo de trabalho | 0 a 3 | 4 a 5 | 6 a 8 |
| Influência no trabalho | 5 a 8 | 4 | 0 a 3 |
A satisfação com o trabalho só é classificada como seguro ou risco. Os comportamentos ofensivos — atenção sexual indesejada, ameaças, violência física e bullying — não recebem classificação: são situações inaceitáveis, que exigem apoio à vítima, canais seguros de denúncia e medidas para prevenir, interromper e punir.
Os autores sugerem apresentar os resultados por setor em barras empilhadas, com a porcentagem de trabalhadores em cada cor. Outra forma é comparar a média de cada dimensão com valores de referência da população — mas, segundo o ensaio, ainda não havia dados normativos brasileiros publicados.
Versão portuguesa
O manual da versão portuguesa, da Universidade de Aveiro, usa a média de cada subescala, de 1 a 5, comparada com valores normativos de Portugal. Como apoio, divide a escala em tercis, com pontos de corte em 2,33 e 3,66, numa leitura de semáforo: verde (favorável à saúde), amarelo (intermédio) e vermelho (risco). É uma convenção daquela versão, não uma regra geral do COPSOQ.
Cor no gráfico não é nível de risco da NR-01
Na NR-01, o nível de risco combina severidade e probabilidade, conforme os critérios documentados no PGR (item 1.5.4.4.2). Segundo o MTE, o resultado de um questionário é subsídio para identificar perigos e avaliar riscos — não substitui essa avaliação, que também considera observação, diálogo com os trabalhadores e dados da empresa.
Cuidados éticos e limites
As diretrizes da rede internacional tratam anonimato e confidencialidade como condições para a participação dos trabalhadores: respondentes e respostas devem permanecer anônimos, e o acesso aos dados deve seguir as normas legais e éticas de proteção de dados. O manual do MTE vai na mesma linha: se houver questionário, recomenda garantir o anonimato, porque sem confiança o diagnóstico será falho.
Como boa prática geral:
- analise e divulgue os resultados de forma coletiva, nunca por pessoa;
- em equipes pequenas, agrupe dados ou só divulgue resultados de grupos com um número mínimo de respondentes, para evitar identificação indireta;
- deixe claro quem terá acesso aos dados e para quê;
- garanta que todos possam ver e discutir os resultados de que participaram;
- use o resultado como ponto de partida para o diálogo, não como veredito.
Limites do instrumento
A versão curta é prática, mas tem menos itens e pode captar menos nuances, sobretudo em ambientes heterogêneos. Em grupos pequenos, a análise estatística fica frágil. Por isso, os autores do COPSOQ II-Br recomendam complementar o questionário com abordagens qualitativas, como grupos focais.
Licença de uso
O COPSOQ é gratuito, sob a licença Creative Commons CC BY-NC-ND 4.0, desde que se sigam as diretrizes da rede. Não se pode cobrar pelo questionário em si; serviços de avaliação, assessoria, análise e treinamento podem ser cobrados. Versões modificadas não podem ser distribuídas com o nome COPSOQ.
Perguntas frequentes
O que é o COPSOQ II?
É a segunda versão do Copenhagen Psychosocial Questionnaire (Questionário Psicossocial de Copenhague), desenvolvida na Dinamarca e descrita em artigo científico de 2010. Avalia exigências do trabalho, organização e conteúdo, relações e liderança, valores no local de trabalho, saúde e bem-estar e comportamentos ofensivos.
Quantas perguntas tem o COPSOQ II?
Depende da versão. A curta tem 40 perguntas em 23 dimensões; a média, 87 perguntas em 28 dimensões; a longa, 127 itens em 41 escalas. A versão curta tem adaptação e validação publicadas para o Brasil (COPSOQ II-Br).
O COPSOQ II é obrigatório pela NR-01?
Não. A NR-01 não impõe questionário, e o Ministério do Trabalho e Emprego não indica ferramenta específica. Se for usado, os resultados precisam ser analisados e incorporados à Avaliação Ergonômica Preliminar ou ao inventário de riscos.
O COPSOQ é gratuito?
Sim. Ele é distribuído sob a licença Creative Commons CC BY-NC-ND 4.0, desde que as diretrizes da rede internacional sejam seguidas. Não se cobra pelo questionário em si; serviços de avaliação, assessoria, análise e treinamento podem ser cobrados. Versões modificadas não podem ser distribuídas com o nome COPSOQ.
Qual a diferença entre o COPSOQ II e o COPSOQ III?
O COPSOQ III, publicado em 2019 pela rede internacional, atualizou o instrumento e definiu itens centrais obrigatórios para todas as versões nacionais. As validações brasileiras listadas pela rede são do COPSOQ II.
Referências
- Kristensen TS, Hannerz H, Høgh A, Borg V. The Copenhagen Psychosocial Questionnaire: a tool for the assessment and improvement of the psychosocial work environment — Scandinavian Journal of Work, Environment & Health, 2005
- Pejtersen JH, Kristensen TS, Borg V, Bjorner JB. The second version of the Copenhagen Psychosocial Questionnaire — Scandinavian Journal of Public Health, 2010
- COPSOQ II: the scales of the short COPSOQ II questionnaire (com o quadro das versões longa, média e curta) — National Research Centre for the Working Environment (NFA), Dinamarca
- Burr H et al. The Third Version of the Copenhagen Psychosocial Questionnaire — Safety and Health at Work, 2019
- COPSOQ III: guidelines and questionnaire — International COPSOQ Network
- Licence, guidelines and questionnaire — International COPSOQ Network
- Validation studies (estudos de validação por país) — International COPSOQ Network
- Gonçalves JS, Moriguchi CS, Chaves TC, Sato TO. Cross-cultural adaptation and psychometric properties of the short version of COPSOQ II-Brazil — Revista de Saúde Pública, 2021
- Sato TO et al. Copenhagen Psychosocial Questionnaire – versão curta brasileira (COPSOQ II-Br): aplicação e potencialidades para avaliação dos fatores psicossociais do trabalho no contexto da NR-1 — Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 2026
- Lima IAX, Parma GOC, Cotrim TMCP, Moro ARP. Psychometric properties of a medium version of the Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ II) for southern Brazil — Work, 2019
- Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ): versão portuguesa — manual — Universidade de Aveiro (Silva C et al.)
- Perguntas e respostas sobre o capítulo 1.5 da NR-1 (maio/2026) — Ministério do Trabalho e Emprego
- Guia de informações sobre os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho (2025) — Ministério do Trabalho e Emprego
- Manual de interpretação e aplicação do capítulo 1.5 da NR-1 (2026) — Ministério do Trabalho e Emprego